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ReviewReviewReviewReviewReviewJun 13, '08 7:00 PM
for everyone
Category:Books
Genre: Science Fiction & Fantasy
Author:China Miéville

Perdido Street Station é um livro difícil de resenhar. Não que ele seja um livro absurdamente complicado nem nada assim; no entanto, a quantidade de elementos que ele consegue agregar, temas sobre a qual ele trata e assuntos que ele me instiga a falar é tamanha que eu até fico um pouco receoso de esquecer alguma coisa importante. Mas vamos lá, então, porque, difícil que seja, é também um livro sobre a qual certamente vale a pena comentar.

Começando pelo autor: China Miéville, do já resenhado The Scar, que em realidade é o segundo romance do autor ambientado no mundo de Bas-Lag, sendo esse aqui o primeiro - parece que eu tenho algum tipo de sina de começar sempre pelos segundos volumes. E tudo o que eu já havia dito sobre ele no livro anterior em grande medida pode ser dito aqui também: Miéville é um autor de mão cheia, que se vale de recursos variados para contar suas histórias, e tem uma abordagem sobre o gênero fantástico bastante peculiar, fugindo dos clichês e lugares comuns; também não espere encontrar elfos ou anões por aqui, entre outras coisas. Mas, claro, eu não preciso falar apenas por mim - se no livro anterior havia comentários derretidos de Michael Moorcock, autor do clássico Elric de Melniboné, desta vez é Neil Gaiman, autor de Sandman, Stardust e outros clássicos contemporâneos de fantasia em quadrinhos e em prosa, quem se derrete em elogios logo na capa da obra.

Apesar de se passar no mesmo mundo de The Scar, no entanto, o enredo de Perdido Street Station não completa com ele uma história única; há em cada um uma pequena referência aos personagens do outro, além de um pequeno detalhe deste que coloca em andamento os acontecimentos daquele, mas ambos são histórias completas e independentes, que apenas dividem um cenário em comum. Perdido Street é, ainda, um livro muito mais sombrio e pesado, com cenas perturbadoras e momentos que fazem a fantasia suja de um Inimigo do Mundo parecer bobinha e juvenil. Mas há, mesmo assim, alguns elementos que aproximam as duas histórias, e as tornam algo como romances irmãos - tanto The Scar como Perdido Street são anti-épicos de fantasia, que pegam os elementos tradicionais dos épicos fantásticos e os subvertem e modificam.

Os personagens, por exemplo, são, em ambos os livros, pessoas comuns - artistas, pesquisadores, jornalistas -, e não os reis, heróis e aventureiros tão típicos do gênero - aliás, para quem está acostumado com histórias de RPG, é especialmente marcante a forma como é retratado o grupo de aventureiros que, em dado momento, toma parte nos acontecimentos da história. O foco do livro, de qualquer forma, está nessa vida cotidiana de mundos de fantasia, onde a magia e criaturas fantásticas existem e são tratadas com naturalidade e rotina; poderíamos dizer que é uma espécie de fantasia realista, em oposição ao realismo fantástico de autores latino-americanos como Gabriel García Marquez e Jorge Luís Borges. E é em meio às suas vidas fantásticas cotidianas que os personagens acabam se envolvendo com questões maiores do que podem lidar, e são obrigados a fazer escolhas e sacrifícios que trarão pesadas conseqüências para todo o mundo à sua volta.

Apesar de lidar com personagens cotidianos, no entanto, nem The Scar nem Perdido Street Station deixa de ser, em qualquer momento, um épico de ação e aventura. Ainda há, por exemplo, as viagens por pontos distantes de um mundo fantástico, com descrições deslumbradas sobre seus habitantes e situações - e não é porque em Perdido Street, principalmente, este mundo se resume a uma cidade que ele é menos vasto e impressionante, repleto de criaturas intrigantes e maravilhosas; é significativo que o livro abra com a chegada de um personagem à metrópole de New Crobuzon e termine com a saída de outro. A fantasia dele é predominantemente urbana, de tendências góticas, e não rural e selvagem como é tão típico do gênero; é um mundo de ciências taumatúrgicas e complexas máquinas à vapor, repleto de raças fantásticas e personagens característicos. E há ainda monstros enlouquecedores na melhor tradição de H. P. Lovecraft, um governo controlador e repressor que remete a George Orwell, e diversos outros elementos colados e encaixados com perfeição, como todo bom pastiche deve ser.

Claro, também não vou dizer que esta seja uma obra completamente livre de defeitos. Como o outro livro, este também começa bastante devagar, apresentando calmamente personagens e situações antes de colocá-los em conflito, ainda que o crescendo de ação aqui seja mais acentuado, e na metade final seja realmente difícil de largá-lo para fazer qualquer outra coisa. Mais para o final há também aparições relâmpagos de certos personagens que não parecem realmente fazer muito sentido além da vontade do autor de colocá-los na história; e é possível ver algumas pontas de moralismo em certos momentos que não condizem com o ambiente pesado e crítico que domina a maior parte do livro. Nada disso, no entanto, faz Perdido Street Station deixar de ser uma obra brilhante e magnífica, e uma leitura obrigatória para qualquer um que ache que literatura fantástica pode ser também madura e crítica, sem por isso deixar de ser envolvente e cativante.
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Classificação:
1 estrela - não vale uma bala Xaxá de abacaxi: arrisque-se por si mesmo, mas não diga que eu não avisei!
2 estrelas - com alguma boa vontade e umas doses de uísque barato, alguma coisa lá no fundo ainda se salva.
3 estrelas - não é assim uma Brastemp, mas também não é um desperdício completo de tempo e dinheiro.
4 estrelas - pode não ser o último guaraná Fruki do deserto, mas vale o tempo perdido e o capital investido.
5 estrelas - incomensuravelmente imperdível! A última limonada sem açúcar do deserto! Você não pode morrer antes de ler / ver / ouvir / o que for!



marlonteske wrote on Jun 14, '08
É a segunda resenha épica que ouço deste livro. Se um dia eu achar no meu idioma, vou comprar seeem dúvida =D
brunos wrote on Jun 14, '08
Bom, por aqui eu acho difícil de tu achar =P Só se a Conrad ou a Devir se empolgarem e resolverem lançar numa edição gigante de uns 50 reais... Mas ele foi traduzido pra vários países europeus, se tiver sorte dá pra achar em português de Portugal =P
everlost wrote on Jun 14, '08
Em espanhol é mole de ler..
Mas quantas páginas tem ?
brunos wrote on Jun 14, '08
é grandinho... Nessa edição pocket que eu comprei são mais de 600 pgs.
fosco wrote on Jun 14, '08
Como vc coloca um livro de 600 paginas no bolso?
Devia ser uma versão bag, nao pocket....
everlost wrote on Jun 14, '08
em cada bolso ele leva 300 páginas...
brunos wrote on Jun 14, '08
no inverno dá pra levar, o meu casaco tem bolsos grandes... O único problema é no verão...
erickmagnus wrote on Jun 17, '08
É, não dá pra carregar na minha sunga...
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